segunda-feira, 18 de agosto de 2008

TELLS II - CARO

[Off topic: ranking atualizado da Liga Goianiense, após a etapa de 26/11, aqui. "Chocolate" dispara na liderança, Ricardo assume o 2o lugar.]



TELLS (II) - LIVE


Não se pode falar de tells no live game sem se falar de Mike Caro.

Caro nasceu em 1944, e adulto tornou-se um jogador profissional de pôquer - segundo alguns (Brunson, Sklansky) um dos melhores de Draw Poker que já existiu e, mais que isso, fez-se um grande teórico do jogo, abordando as vertentes matemáticas e psicológicas. A matemática está, por exemplo, em um capítulo do "Super System", livro clássico do bicampeão do WSOP Doyle Brunson. Já há muitos anos (1984) Caro desenvolveu um programa que conseguia jogar (bem) pôquer, o "Orac" (seu nome ao contrário).

O próprio Caro é autor de vários livros e artigos em revistas. Trabalhou também como consultor em cassinos e, por fim, montou uma universidade do jogo (!), a MCU, "Mike Caro University of Poker Gaming and Life Strategy", que promove cursos, lança DVDs etc.

O livro mais famoso de Caro é o "Poker tells", lançado no começo da década de 80 e que hoje também é um clássico da biblioteca do pôquer. Caro foi estudar a linguagem corporal dos jogadores de pôquer, e mais, fez isto cientificamente, calculando mesmo a porcentagem de vezes que um jogador fraco, médio ou forte emite de forma confiável tal sinal, e ainda o lucro estimado que a observação e aplicação destas tells podem dar por hora! Não é à toa que Caro é chamado de "Mad Genius of Poker"... (pela foto nota-se que ele tem mesmo cara de louco)

Ele define: "Any mannerism which helps you determine the secrets of an opponent's hand is called a tell." Seu livro é recheado de fotos ilustrativas e, no final, algumas fotos-testes.

Se há um livro que um jogador de live deva ler, acredito que seja esse. Não por causa de estratégias, porque neste ponto existem outros ótimos - mas justamente porque este trata de um assunto fundamental no live e que os outros mal tocam.

Para analisar um jogador possuímos algumas maneiras. Uma é analisar as suas jogadas, de um ponto de vista frio, objetivo. Esse dá raise de 3 x o BB com 99 na mão, aquele vê pouquíssimos flops etc. Desta maneira, você estará fazendo "ao vivo" uma parte (bem pequena, mas mais confiável) do trabalho que programas como o Poker Tracker fazem. Sim, este é o problema de se apoiar demais no programa, jogando online: não se acostuma a fazer o "trabalho duro", que é ter paciência de analisar os adversários.

Outra maneira de estudarmos um jogador, no live, é fazermos um estudo direto daquela pessoa, naquela mão. Isto é, recolher as tells. Esta ação é o que basicamente as pessoas pensam que seria a "psicologia" do jogo: saber enganar, e saber pegar as mentiras.

O livro de Caro cita algumas dezenas de "leis", tipo: "se a pessoa está fazendo isto, é provável que esteja blefando, então pague ou dê raise"; "se faz aquilo, está com um jogo monstruoso na mão, fuja" etc. Com mais de 100 páginas, o livro poderia ser bem resumido apenas nestas leis. O resto são as fotos, uma descrição mais detalhada da ação, uma explicação sobre a motivação do jogador em emitir tal tell, e porcentagens de vezes em que a tell realmente significa o que aparenta.

Se o livro pode ser resumido em algumas páginas, e as leis facilmente decoradas, isto não quer dizer que após a sua leitura você sairá um "mago da adivinhação". O próprio Caro é um exemplo disso: se procurar por seus resultados, não encontrará grandes vitórias. Dizem que Doyle Brunson afirmou que poderia vencer seus oponentes sem mesmo ver suas cartas. OK, se ele disse isso mesmo, por que é que não vence todos os torneios que participa? Primeiro, por causa da inegável influência do fator sorte. Segundo: nenhum adversário é totalmente ingênuo a ponto de sorrir com cartas boas e ficar cabisbaixo com as ruins. Qualquer iniciante de pôquer sabe que é um jogo de enganar os adversários, e irá, com maior ou menor habilidade, tentar provocar o erro do adversário. Terceiro, e talvez mais importante: mesmo sabendo todas as leis, é muito difícil, na prática, captar as tells que seu adversário emite.

Digo por experiência própria: eu, como psiquiatra, tenho uma certa prática em observar pessoas. E mesmo assim acho complicado isso de pegar as tells. Tenho uma hipótese para esta dificuldade, que acho pode ser generalizada: durante o jogo, estamos naturalmente concentrados na nossa mão, no que o flop trouxe para nós, e não no jogo dos outros. Por quê? Porque obviamente é o que mais nos interessa. Se o cara na minha frente não tem nada e eu também não, não interessa, não vou disputar quem tem um "nada melhor". Por outro lado, se meu jogo bateu, não quero saber se o dele bateu ou não, sei que eu vou entrar nesse pot!

Além disso, prestar atenção nas tells é ter que prestar atenção aos detalhes. É trabalhoso, é cansativo. E a mente sempre prefere o que é mais simples. São vários jogadores na mesa, e teria que observar vários, catalogar mentalmente seus atos e fazer uma correlação com as cartas que mostram etc. Fatigante!

Mas o pensamento não deveria parar aí, no trabalho, e sim nas conquistas que viriam disto: segundo Caro, é possível ganhar até 3 vezes mais dinheiro se souber captar as tells e agir conforme elas indicam.

Por outro lado, acredito que esta dificuldade seja apenas no começo do processo. A habituação pode tornar as coisas mais simples. E, quando menos se espera, consegue-se ler os adversários. Se não em todos os seus movimentos, pelo menos em alguns, o que já seria uma grande coisa.


No próximo artigo farei então um resumo do livro, com alguns comentários meus. Até lá!



(Fernando César)
(E-mail) (Orkut) MSN: fernandopsiquiatria@bol.com.br

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