segunda-feira, 18 de agosto de 2008

viver do poquer

Primeiramente, um obrigado a todos que passaram por aqui esta semana, espcialmente aos que deixaram recados de apoio. Pretendo atualizar sempre aos domingos.

Aos que já são mais avançados e que porventura passem por aqui, peço o favor de me corrigirem caso eu use algum termo errado ou faça alguma besteira do gênero.



VIVER DE PÔQUER?!

"Eu não preciso de muito dinheiro,/ Graças a Deus" (O Rappa, "Vapor Barato")


Você possui dez mil reais "sobrando" (bom, dinheiro nunca sobra, mas suponhamos). Foi demitido, pegou isso no FGTS. Você pode montar uma lojinha de roupas. Ou uma lanchonete. Terá que trabalhar o dia inteiro e talvez tenha um retorno, aí, de uns 2 mil reais por mês. Se deixasse na poupança, o retorno seria, no máximo, 100 reais por mês (mas não precisaria trabalhar - só que então morreria de fome).

Ou você pode pegar estes 10 mil e tentar "viver de pôquer". Viver do jogo é o sonho recente de muitas pessoas, alimentado especialmente pela transmissão televisiva de torneios milionários.

Mas dá pra viver de pôquer? Bom, se uns vivem, a resposta é: "dá"! Mas com o pôquer acontece algo parecido com muitas outras profissões: apenas uns poucos tornam-se os bã-bã-bãs, e o resto sobrevive amargamente. Dizem, por exemplo, que não é possível viver de literatura no Brasil. Aí alguém citará: "Mas e o Paulo Coelho?". Como diz o ditado: as exceções só confirmam a regra. E os astros do futebol? Mesma coisa: para cada Ronaldinho nadando em dinheiro há milhares nadando na lama de gramados-sem-grama.

Acredito que existam dois tipos básicos de pessoas que enriqueceram com o pôquer: aquelas que ganharam um ou dois grandes torneios e praticamente "aposentaram" depois disto (ou porque se desinteressaram ou porque, na prática, não conseguiram mais vencer grandes competições) e aquelas que trabalham mais arduamente, tendo ganhos menores que os dos grandes campeões, mas mais constantes.

Um grande torneio desse depende da habilidade do jogador, mas talvez dependa mais da sorte. Quantos novatos não deixam veteranos para trás, todos os anos?! Mas depende das qualidades do jogador, também, não é sorte. Há uma certa controvérsia: uns dizem que a mesa final (final table) destes torneios é loteria; outros acreditam que é bingo... Brincadeiras a parte, temos que admitir que o torneio tem uma dinâmica de formação de vencedores bem diferente das mesas de cash.

Compensa investir tempo e dinheiro em torneios? Por que não?! Como se diz: "vai que um dia bate...". Porém, o retorno é menos previsível que nas mesas, porque é difícil fazer uma estimativa de quando, afinal, irá acontecer a grande vitória.

Já nas mesas, a situação é um pouco mais controlável, menos caótica, mesmo que sejam no limit, onde a variação do bankroll é maior que nas limit. O bankroll de um jogador relativamente controlado sobe (ou desce...) a uma taxa mais ou menos constante.

Essa taxa é o chamado return of investiment, mais popularmente chamado de "ROI". Para quem não sabe, o ROI é a porcentagem ganha ou perdida sobre o tanto que foi jogado. Um jogador que gastou $220 participando de 10 torneios, e num deles ganhou $350, e nos outros não ficou na faixa de premiação (in the money) teve um ROI de $130, ou 59%.

A questão sobre a possibilidade de viver de pôquer é respondida, basicamente, pelo ROI.

Se eu tenho 10 mil reais para investir no bankroll e preciso de 2 mil por mês para viver, preciso de um ROI mensal de 20%. Por outro lado, se tenho apenas mil reais para o bankroll e necessito dos mesmos 2 mil mensais, precisaria de um ROI de 200%!

Disto já tiramos umas primeiras conclusões: se quero viver de pôquer, quanto maior a quantidade de dinheiro que puder dispor inicialmente para o jogo, menor o ROI necessário - isto é, será mais fácil. E o contrário também é verdadeiro: quanto menor a disponibilidade financeira inicial, resultará na necessidade de um retorno bem maior.

Suponhamos que, com o bankroll X que possuo, eu precise de um ROI de 50% para poder viver só de pôquer.

Se eu ganhar um grande torneio, posso ter um ROI enorme, que talvez me permita até tirar uns meses de férias de tudo, inclusive do pôquer. Por outro lado, as chances de uma pessoa qualquer ganhar um torneio desses são bem pequenas - alguns mil chegaram à final do WSOP, e destes poucos ficaram realmente in the BIG money - mas quantos tentaram chegar até àquela final e não conseguiram?! Repetindo, o ROI dos participantes de torneios geralmente oscila muito, de um mês para outro, e até de um ano para outro, o que não facilita a vida de quem tenta o pôquer como profissão. Aliás, muitos participantes de torneios, na verdade, não vivem disto - sobrevivem com os ganhos da mesa, diários, e parte deste ganho é "reinvestida" em torneios, na tentativa de multiplicar os ganhos. Acho isto uma boa estratégia.

No fim das contas, a sobrevivência de quem vive de pôquer geralmente depende mesmo é das mesas de cash. E o que importa, então, é o ROI obtido aí.

Aconselha-se que uma pessoa jogue, nas mesas, em uma de buy-in (cacife) 20 vezes menor que o seu bankroll. Imaginemos que o "trabalhador braçal" do pôquer, isto é, aquele que joga todos os dias, várias horas por dia, siga esta fórmula. E suponhamos que ele precise de um ROI mensal de 50% para viver bem. Ele precisa, portanto, que o seu bankroll termine o mês 50% maior do que estava no dia primeiro.

Não é tão difícil conseguir a sobrevivência, para esta pessoa! Vejamos. Digamos que o bankroll inicial deste jogador seja de $4000. Ele joga em mesas cash de buy-in de $200 (20 vezes menor que o bankroll, para evitar a quebra súbita), e precisa ganhar $2000/mês, se estipulamos que com isto ele vive bem. Se vive disto, joga quase todos os dias. Jogando de segunda a sexta, são 20 dias no mês. Precisa lucrar, portanto, $100 por dia. É apenas meio cacife, na mesa que entrou. Claro que não precisa ganhar meio todos os dias. Há dias em que ganhará dois, três, e estes devem compensar os dias que não ganhar nada e, principalmente, os que perder.

É difícil ganhar uma média de meio cacife por dia? Não, não é coisa de outro mundo. Daí concluímos que, sim, é possível viver de pôquer.

Mas partimos de um determinado exemplo. Um outro jogador, de bankroll inicial de $1000 e que queira os mesmos $2000 por mês, jogando as mesmas 20 vezes por mês, numa mesa de buy-in $50 (a mesma proporção, 20 vezes menor), também precisaria lucrar $100 por dia. Só que, para ele, isto significaria ter que lucrar dois cacifes, em média, todos os dias. Ou seja, seu jogo teria que ser "4 vezes melhor", para garantir aquela renda, do que o jogo daquele jogador que tinha o bankroll inicial de $4000. Terá que ser 4 vezes melhor para obter o mesmo ganho justamente porque o bankroll era 4 vezes menor. A relação é direta.

Então reforçamos, agora, as conclusões acima: é possível, sim, viver de pôquer, tão mais fácil será quanto maior puder ser seu investimento inicial. (Claro que estamos falando, aqui, de uma facilidade abstrata, porque na prática o nível de jogo no buy-in de $200 é mais elevado que no de $50 - mas não chega a ser "4 vezes mais elevado"). E tão mais difícil será viver do jogo quanto menor for a sua disponibilidade financeira inicial. O nome já diz tudo: "retorno do investimento" - ou seja, o pôquer é um investimento econômico. E, como qualquer investimento, quanto maior for, maior o retorno líquido.

É relativamente simples, portanto, para cada um que queira viver de pôquer, calcular quanto precisaria ganhar por dia, em termos de cacife. E, desta forma, concluir sobre a viabilidade ou não do sonho. Ganhar meio cacife por dia é viável. Ou ¼: mais fácil ainda. Já ganhar 2, ou 5, dependerá de uma habilidade muito maior. Genial, até.

Só não se pode é empolgar demais, colocar uma grande quantia como bankroll inicial e partir logo para mesas muito altas. A inexperiência comerá facinho, facinho este bankroll. Por outro lado, quem tem uma grande disponibilidade de dinheiro sente-se pouco motivado em jogar em mesas de buy-in muito baixo. Se está começando, e possui uma grande disponibilidade financeira, talvez o melhor seja jogar num buy-in umas 40 ou 50 vezes menor que o bankroll, até adquirir a "manha". Quando estiver ganhando aí (constantemente, e não uma vez ou outra), então pode subir de mesa.

Por fim, feitas as contas, e concluído que, pelo seu nível de jogo, é possível ganhar sim a quantidade necessária, vem uma outra questão: seduzidos pelas imagens glamourosas dos filmes, das finais, muitas vezes nos esquecemos que trabalhar como jogador de pôquer geralmente é... um trabalho como outro qualquer, em 90% do tempo. Pode "faltar" em um dia de preguiça? Até pode, mas aquele dia é perdido, financeiramente. Pode acordar tarde? Pode, mas terá que passar horas frente a um computador. Etc. E compensa, então, largar o seu trabalho por este? Questão interessante, mas este é um outro assunto, para um outro artigo...


(Fernando César)
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