segunda-feira, 18 de agosto de 2008

estudando poquer

A Maria Eduarda, do Need An Ace, me amaldiçoou, em um comentário do post anterior. Que se eu continuar a escrever "pôquer", ao invés de "poker", não irei ganhar nada. Realmente, desde o comentário, já perdi quase 10 mil dólares (hehe, sonho...). Mas vou tentando manter o português, onde for possível. Ela escreve "poker", e escreve coisas interessantes.

Artigo enooorme hoje, mas aqui não vamos poupar não.



ESTUDANDO PÔQUER

"Se você quiser se divertir / Invente suas próprias canções" (Legião Urbana, "Marcianos invadem a Terra")



Não existe Faculdade de Pôquer no nosso país. Ainda bem. Com o nível da educação no Brasil (que aparentemente não melhorará tão cedo - vide o 1% do Cristovam, nas pesquisas...), teríamos uma leva de "poquerologistas" que entenderiam muito de teoria, "mas na prática..." Hoje temos faculdade até de gastronomia - o que era uma arte, no tempo das nossas avós, virou ciência. Mas de pôquer, ainda não temos. Entretanto, o profissional de pôquer, como o próprio nome diz, exerce uma "profissão". Mas onde ele vai se "formar"?

A prática é uma ótima escola. Não é raro vermos "médicos práticos" ou "dentistas práticos" presos por exercício ilegal da profissão. Não é que as exerçam de modo ruim, ou errado, não. É só pelo exercício ilegal. Muitas vezes são até bons profissionais, e seus pacientes estão satisfeitos. A prática ensina, sim. Só que sem a teoria ela acaba ficando meio manca. (E vice-versa.)

Dá para evoluir no pôquer só com a prática? Sim, por que não?! Porém, se juntarmos à isto o estudo teórico, por certo o crescimento será bem mais rápido. Só que não temos a Faculdade do Pôquer. Não temos professores particulares de pôquer (ao menos em número suficiente para o tanto de gente que quer aprender). Enfim, o estudioso do pôquer tem que ser autodidata.

Nós não estamos acostumados a isto. O nosso sistema educacional privilegia a passividade: ir às aulas, prestar atenção, e, nas provas, responder o que já sabemos que será perguntado. Apenas em níveis muito avançados da formação, como um mestrado, é que se aprende a importância e o como estudar por conta própria.

Ser um autodidata tem seus prós e contras. Desvantagem, por exemplo, é que o conteúdo não vem mastigadinho. Ou a ausência das provas no final do mês (afinal, só estudamos, na escola, porque existem as provas, não é mesmo?). Por outro lado, sem a obrigação de estudar, o peso sobre as costas fica menor. Pode-se estudar na hora que quiser, e não quando outros determinem.

De qualquer forma, será necessário construir um programa e um método de estudos.

Contudo, antes de tudo uma pergunta tem que ser respondida: estudar pra quê? Não há um professor enchendo o saco. Não há o papai querendo ver o boletim no fim do mês. Enfim, não há cobrança nenhuma. (Aliás, há: a cobrança da MasterCard ou da Visa no final do mês...) Pra uns isso é uma maravilha, porque fazer algo sob obrigação é altamente desestimulante. Para outros, entretanto, acaba sendo a permissão para a preguiça dominar. O que é a preguiça de fazer uma coisa? É a preferência de fazer outra coisa. Mas por que eu iria preferir fazer outra coisa do quê estudar pôquer? Isso é muito comum: a pessoa gosta de jogar, mas não de estudar. Realmente, são duas coisas bem diferentes. Uma libera adrenalina, a outra causa hemorróidas...

O primeiro ponto, portanto, é a motivação. Estudar pra quê? Pra melhorar seu jogo, "só" isso. Sem um resultado esperado que seja claro e muito bom, é impossível surgir a empolgação suficiente para o estudo.

Acho que não existe um jogador top que não estude. Tá, pode existir um ou outro que simplesmente "nasceu sabendo", mas deve ser caso raro. E bobo dele de não estudar, porque talvez seria ainda melhor.

Já devidamente convencido da necessidade dos estudos, a segunda pergunta a ser respondida é: estudar o quê? "Pôquer" é uma resposta muito vaga. Cada um sabe, entre tantas formas de pôquer, a que lhe agrada mais. A que joga melhor. E é nesta que deve investir seu tempo. A educação moderna (primeiro mundo) se concentra mais em desenvolver potencialidades do que em suprir falhas. Se o garotinho gosta é de história, para quê entupir-lhe de matemática?! Prefiro torneios ou cash? Live ou online? Hold`em ou stud? Limit ou no limit? Cada respostinha desta leva a um tipo diferente de jogo. Estudar para um tipo diferente do "seu" pode, aparentemente, ser bom, porque, afinal, está estudando "pôquer". Mas, geralmente, as estratégias que servem para um tipo não se encaixam com exatidão no outro - e podem até ser opostas. Primeiramente, portanto, é preciso definir o foco do estudo.

Terceira questão: estudar onde? Existem muitos livros e sites sobre pôquer. Aí podem surgir pelo menos dois problemas: o dinheiro e o inglês. O primeiro é relativamente fácil de ser solucionado: não é tão difícil encontrar livros para download (ilegais, claro). Mesmo que fosse, existem muitos sites de pôquer com bastante conteúdo aberto. Aí entra a questão do idioma. Quem tem dificuldades para ler em inglês terá uma restrição muito grande de fontes disponíveis. Existem ótimos sites em português (de Portugal, também), mas é inevitável concluirmos que, se o estudioso puder ler em português e inglês, terá muito mais materiais à disposição.

Outra coisa: se possível, é preferível estudar por livros que por sites. Por quê? Porque sites aceitam qualquer coisa, escrita por qualquer um (como este meu aqui...) - já editoras querem lucro, e obterão como? Publicando livros de grandes jogadores, bem escritos etc. Claro que sites têm muito conteúdo de igual ou melhor nível, mas aí entra a segunda vantagem dos livros: a organização do conteúdo. Em sites, a coisa é mais bagunçada, mais solta.

Contudo, uma seleção tem que ser feita. Seleção esta determinada pela resposta à primeira pergunta. Como dito, é preciso focar. Estudar o seu jogo, principalmente. Por exemplo: dia desses encontrei vários livros disponíveis para download, quase uma dezena. Mas vi que apenas um ou dois me teriam uma serventia maior, e outros ou eram semelhantes ou fugiam do jogo que quero aprimorar.

A quarta questão: estudar quando? Escolas têm aulas regulares, provas com datas definidas. Aqui, não. O programa de estudos tem que ser feito pelo próprio aluno. Com isto, ele pode estabelecer o seu próprio ritmo, o que é uma vantagem. Mas, para evitar que a falta de compromisso acabe vencendo, o ideal é colocar um objetivo relativamente bem estabelecido, como "ler o livro tal em dois meses, e nos dois meses seguintes ler o outro".

Dois meses para ler um livro?! Nem analfabeto leva tanto tempo! Mas aí é que entra a diferença entre apenas ler e efetivamente estudar. Ler um livro num final de semana é fácil. Mas absorver todo o seu conteúdo é praticamente impossível. O que é estudar, de verdade? É aprender, é dominar os conceitos ali ensinados. É, poder, ao fim, jogar o livro fora, porque não precisa mais dele. Porque já sabe tudo o que está escrito ali. (Observação: "jogar fora" foi uma metáfora - doe o seu para mim, ao final do processo.)

O iniciante muitas vezes tem uma afobação. Quer ler tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E lê. Mas não absorve quase nada. Porque o pôquer implica em conceitos complexos, difíceis. E a gente "implica" com esses conceitos e queremos pulá-los. O livro tem exercícios, testes, mas "depois eu faço" ( = nunca).

Junto com esta pressa pode estar outro problema: o não querer assumir a ignorância. Eu só preciso estudar bem o que eu não sei. Se eu me dedico a estudar uma teoria, isso significa, portanto, que não a sei. É chato não saber... Mais chato ainda seria perceber que, mesmo estudando, não consigo aprender. Aí, além de ignorante, seria incompetente (burro mesmo). Então, se eu não tentar resolver os exercícios, não preciso ver que não aprendi bem o que o cara queria ensinar, e fico com a sensação que entendi tudo, e que estou pronto para "detonar". Mas, se o pôquer não é uma escola com provas no fim do mês, não existe prova melhor que a ascensão ou queda do bankroll. Porque neste não há como colar, como falsificar o resultado. E, sem estudar, mesmo que ele suba, pode estar certo que, estudando, subiria bem mais.

Portanto, o iniciante tem mesmo é que assumir essa sua condição de ignorância, e começar do zero. E sem pressa, para não enganar a si mesmo com um falso conhecimento.

Estabeleça alguns horários semanais para o estudo. Evite estudar "todos os sábados", por exemplo. É melhor estudar um pouquinho por dia que muito de vez em quando, por uma questão de ritmo. E de motivação, também. É mais fácil animar-se a fazer algo por meia hora que por quatro horas seguidas.

Quinta questão: estudar como? Isto é uma coisa que nem as escolas se preocupam muito, a dinâmica do aprendizado. As aulas são dadas, você tem o livro-texto, e "se vire" com isso. Como sugerimos acima, o objetivo final do estudo é a compreensão. Essa passa por algumas etapas. A mais óbvia é a atenção, a concentração. A coisa tem que passar pela sua consciência. Todo mundo já teve aquela sensação, lendo um livro qualquer, de ter "lido" umas cinco páginas, mas estava tão distraído que não se lembra nada do que leu. Isso não é estudar. A atenção tem que estar ali, naquelas linhas, e não no torneio que vai disputar mais tarde...

Outra etapa é a compreensão mesma. Entendi o que o autor quis dizer? Esse é o ponto fundamental, o mais importante. Se entendi, ótimo. Se não entendi, pára tudo! O grande erro é saltar as partes mais difíceis e "voltar depois" (= nunca). Ora, o que você não entende é justamente o que você não sabe! O que você entendeu facilmente é porque, de alguma maneira, já sabia, já supunha. Aprender é justamente tornar claro o que era obscuro. "Esse tal de implied odds é muito complicado, depois eu volto aqui." Não vai voltar e não vai aprender. E vai se ferrar, a médio e longo prazo.

Queremos fórmulas mágicas, a "dica milagrosa", tipo "se as artérias do pescoço do seu adversário estão pulsando forte, aposte, porque ele está blefando". O pôquer não tem como ser reduzido a umas cinco frasezinhas destas. Nenhuma dica vai te capacitar a enxergar as cartas do seu adversário. Quem espera isso deveria fazer é um curso de visão de raios-x com o Superman, e não ler um livro de teoria do pôquer. As dicas são importantes, fenomenais, muitas vezes, mas são como bonitas peças soltas de um quebra-cabeças, que não formam o quadro inteiro.

As coisas mais complicadas não podem ser resumidas em "dicas", justamente porque são complexas. só que, além de complexas, geralmente são importantes. Sem elas, não espere ir muito longe com seu jogo...

Outro tópico no aprendizado é a memorização. Podemos entender bem uma coisa mas, passado algum tempo, esquecer, "desaprender". Dizem que quem aprende a andar de bicicleta nunca mais esquece. Isto não é 100% verdade. Imagine o dia exato em que você conseguiu andar de bicicleta sem rodinhas. Se daquele momento em diante você nunca mais tivesse andado, vinte anos depois conseguiria? Provavelmente, não. A memorização (fixação do aprendido) se dá, entre outros fatores, pela repetição.

Entrando em aspectos biológicos da coisa, mais como curiosidade: a memória, em termos neurológicos, é a conexão estável entre um grupo de neurônios. Você escuta uma música no rádio e gosta muito. Mais tarde, no mesmo dia, tenta lembrá-la, e não consegue. Isto só será possível após ter escutado a mesma por algumas vezes. Cada vez que a escuta, ela ativa de determinada maneira determinado grupos de neurônios. Esta ativação repetida vai fortalecendo as sinapses (ligações entre os neurônios). E então, chega um momento em que você pode ouvir só o começo da música que poderia, sozinho, completá-la. Ela já está, nesse momento, consolidada no seu cérebro. Essa consolidação é capaz de durar muito tempo, mas geralmente não é eterna. Escutar a mesma música ocasionalmente ajuda a preservar esta memória.

Para quem tem dificuldades de memorização, um toque dado pela ciência: prefira estudar mais para o final do dia (desde que não esteja cansado) do que no começo. A chamada "memória de trabalho" é a que guarda fatos bem recentes, mas que serão apagados, substituídos pelos fatos que irão acontecendo no decorrer do dia. Alguém te fala um número de telefone, você o guarda na cabeça por alguns segundos, anota em um papel e o esquece. Esta é a memória de trabalho. Acontece que, para as memórias se consolidarem, elas tem que passar desta memória de trabalho para outros tipos de memória, "armazenados" em locais diferentes do cérebro. E este processo se dá muito durante o sono. Então pense comigo: o que irá se consolidar melhor, os fatos vividos pela manhã ou os ocorridos mais próximos de dormir? Estes últimos, sim. Alguns testes comprovaram isto. Não irei citá-los aqui porque fogem do objetivo do artigo.

Um outro aspecto essencial no aprendizado é a reformulação do conteúdo. É a personalização dele. Este artigo contém algumas frases em negrito. São as frases que eu considero mais importantes, as que sintetizam o texto. Mas se o texto estivesse sem negrito algum e eu pedisse para você sublinhá-lo, provavelmente não alcançaríamos o mesmo resultado (se é que você sublinharia alguma coisa, é claro). O leitor deve reconstruir o que lê. Deve "reescrever" o livro. Nenhum livro é perfeito para ninguém. Vi um livro de pôquer, por exemplo, que ensinava até a embaralhar e cortar o baralho! Eu não preciso disso. (Pelo menos disso!)

Esta reconstrução, primeiramente, é mental. Mas o ideal mesmo é que ela seja física, concreta. Sublinhar o livro. Fazer anotações nas páginas. Marcar as partes mais importantes. Abrir um arquivo no Word e escrever, você mesmo, o que achou significativo, à sua maneira, com suas palavras. Fazer com as próprias mãos é outra coisa fundamental para aprender. Não é necessário repetir as palavras de um autor. Pelo contrário. Isto é decorar, e não aprender. O que vale é saber repetir a essência do conceito.

Enfim... como se vê, antes de aprender é preciso aprender a aprender...


(Fernando César)
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