Sobre o artigo anterior, "In the money", duas pessoas fizeram observações sobre os sit & go. Realmente, não falei nada sobre este tipo de jogo, mas é porque não tenho experiência quase nenhuma nele, OK?
O artigo de hoje de certa forma é um complemento ao primeiro deste blog, "Eu sou um perdedor", os dois gravitam em torno do mesmo assunto.
EM DEFESA DO TILT
"Eu que já não quero mais ser um vencedor, levo a vida devagar, pra não faltar amor" (Los Hermanos, "O vencedor")
Quase todo mundo diz que o jogador de pôquer deve ser "frio". Por dentro e por fora. Por fora tem um outro objetivo, falarei aqui do ser frio por dentro. Alguém pode interpretar isso como "não sentir emoções". Caso alguém consiga isto, parabéns, provavelmente jogará um bom pôquer. Embora também perca algo com isto, pois as emoções positivas podem ter um efeito benéfico sobre o jogo. Mas geralmente, quando se fala nesta frieza, nem é tanto em relação às emoções positivas, mas sim das negativas - tanto as que trazemos de fora do jogo (preocupações com outras coisas) quanto, especialmente, as que o próprio jogo nos traz, nos causa. Ou seja, o jogador não deve se abalar com a perda, com as bad beats. Principalmente durante o jogo, porque o descontrole piorará o seu jogo, podendo levar a perdas que não aconteceriam se ele estivesse tranqüilo.
Contudo, falar é fácil, o difícil é realizar. Como não se chatear com uma grande perda?! Mas o que quero discutir aqui não é nem isso. Quero chegar a um outro ponto: as conseqüências de tornar-se frio. Aparentemente é uma coisa muito boa não importar-se com as bad beats. Mas será mesmo? Por um lado, se isso for mesmo possível, a conseqüência mais óbvia é que evita a queda do nível do jogo, no restante da sessão. Mas por outro, talvez acabe trazendo também algum prejuízo. Porque o jogador que fica chateado, se irrita com alguma jogada, fica nervoso porque perdeu dinheiro, ele tem uma chance aí que o "frio" não tem: uma oportunidade para tentar ver onde errou, estudar, melhorar seu jogo. Quem aceita as perdas com naturalidade não tem este "incentivo" para estudar que a raiva traz.
Não estou defendendo que o jogador não deva tentar tornar-se imune a estes sentimentos. Só estou mostrando que há um lado bom nestas emoções negativas: elas podem servir de motor para a melhora do jogo. Ideal seria não entrar mais em tilt porque não perde mais. Mas, como sabemos que é (praticamente) impossível não perder nunca, um dia ou outro estará vulnerável a resultados que podem te deixar mal. E então, nestes dias, ou você é frio, ou não. E, se não é, vai se sentir chateado, mas esta contrariedade pode (deve) servir para a sua evolução. Perdeu por quê? Tem um motivo! Foi azar puro? Ou foi uma jogada errada? Ou várias jogadas ruins? Não "leu" bem o adversário? Estava desatento? Etc.
Esta cultuada frieza também pode ser questionada por um outro motivo: à partir do momento em que os resultados já não te importam tanto, por que você ainda joga?! É só pelo dinheiro, então?! Mesmo sendo, não se importa de perder um dia ou outro? Qual a graça de continuar jogando, então?! Não quero dizer que ganhar dinheiro não é bom, óbvio que é. Mas à partir do momento em que suas emoções se anulam no jogo, você não está mais jogando pela emoção de jogar, e sim pelo dinheiro, apenas. Pode render mais assim? Pode. E pra quem busca apenas o dinheiro com o jogo, quanto mais render, melhor. Perfeito. Mas virou um emprego, um trabalho.
Quando alguém está jogando, podem haver vários motivos para o fato de estar sentado àquela mesa, como por exemplo a diversão. É o que acontece freqüentemente quando se joga a valores muito baixos, ou mesmo "valendo" feijões. Neste caso, até é compreensível que alguém não se importe de perder ou ganhar, embora existam muitos que nem aqui aceitem perder. Mas se o jogo é sério e não se dá importância a ele, a graça de jogar já foi perdida.
Claro que há um nível onde estas emoções negativas são mesmo deletérias. O pior é quando elas se prolongam para fora da mesa do jogo. Imagine, por exemplo, alguém que, por causa de uma bad beat, chega em casa nervoso, discute facilmente com seus familiares, com a namorada ou esposa etc. Isso é bem diferente de gritar "droga!" quando no river sai aquela maldita carta que completa a seqüência runner-runner do seu adversário batendo a sua trinca de K, bem diferente do sorrisinho sem-graça que esatampamos depois, bem diferente do falso nh que escrevemos no chat quando na verdade não escrevemos fuck you! que queríamos porque o chat não permite. Claro também que, por alguns minutos, talvez ainda fiquemos pensando naquele fucking river, ainda fiquemos com raiva daquele fucking fish que levou todo o seu dinheiro. Mas ficar contrariado por alguns segundos ou por algumas rodadas é uma coisa. Ficar chateado o restante todo do jogo é outra. E levar a chateação embora pra casa é outra pior ainda. Aí você não está sabendo perder, e a coisa é um pouquinho mais preocupante.
O pôquer é um jogo, e todos querem ganhar, obviamente. Mas é um jogo. Ou seja, você quer ganhar, mas pode perder. E vai perder de vez em quando, inevitavelmente. É chato, mas é normal. O importante é colocar as coisas em uma perspectiva maior. Se você seguiu o conselho mais óbvio que todos os teóricos dão, que é nunca colocar no seu bankroll um dinheiro que realmente te fará falta se perder, então você só perdeu um dinheiro que estava ali pra isso mesmo, pra ser apostado. Mesmo assim, fica a contrariedade: "não é por causa do dinheiro que perdi, mas por causa do jogo que não ganhei!". Concordo plenamente. Em "peladas" no futebol não saem brigas o tempo inteiro? Não é por causa de dinheiro, ou de um título de campeão brasileiro, mas pelo simples fato de estar disputando algo contra alguém. Mas as coisas, repito, devem ser colocadas num horizonte mais amplo. "Perdi hoje, mas ganhei ontem e anteontem." "Perdi hoje, mas posso ganhar amanhã e depois de amanhã."
Mas talvez aconteça de você ter perdido anteontem, ontem, hoje, e perder amanhã e depois de amanhã. Bem, colega, neste caso realmente fica difícil colocar o seu jogo nesta perspectiva maior. Talvez você ainda consiga pensar "Perdi esta semana inteirinha, mas semana que vem e na próxima posso ganhar todos os dias." Acho meio difícil. Porque dificilmente o azar bate na sua porta cinco dias seguidos. Pode até acontecer, mas é difícil. Vai ser complicado culpar a falta de sorte por tantas derrotas, quando sabemos que a sorte importa, sim, no jogo, mas apenas ocasionalmente, quando sabemos que ela não é o primordial. Se você começa a pensar, depois de um mês inteiro perdendo constantemente, de que "amanhã tudo pode ser diferente", você está saindo da razão. Está viciado no jogo - e viciar nem é um grande problema, o problema é viciar em perder. Não quer perder, claro, mas provavelmente vai. Viciou na esperança de que na próxima vez pode reverter tudo. Essa é a pior maneira de se colocar as coisas em perspectiva. Doentia até. Pois é justamente este o pensamento do viciado em jogo (em outro artigo falarei especificamente sobre o jogo patológico).
Se você está perdendo constantemente, e isto está te fazendo muito mal, só há duas maneiras de acabar com este mal. Ou parar de jogar, ou começar a ganhar. você não quer parar de jogar, quer continuar. Então, para o seu próprio bem, precisa começar a ganhar. mas, se está perdendo, é porque está jogando mal, quer queira admitir ou não. Mas terá que admitir isso. Se não, nada vai mudar. o segundo passo é melhorar o jogo. Como? Estudando, estudando. Só que, enquanto esse estudo não evolui, não adiantará nada continuar jogando, porque ainda é um jogador ruim. Terá, portanto, que parar temporariamente. Até que realmente sinta que aprendeu alguma coisa, que aprendeu com os seus jogos mal-sucedidos. Só então poderá tentar jogar e ganhar. Essa conduta toda é um ótimo exemplo de como usar as emoções negativas a seu favor. Eu a sigo da seguinte maneira: perdi muito em um dia, fiquei chateado com isso, o que faço? No dia seguinte, eu não jogo. Por dois motivos: um é mais técnico, tem a ver com a administração do bankroll, que é o seguinte: um dia sem jogar é um dia sem ganhar, certo, mas é também um dia sem perder. Eu sigo aquela fórmula de jogar em mesas de buy-in 20 vezes menor que meu bankroll. Ou seja, por esta fórmula, se eu perder 20 dias seguidos eu quebro. Usando a tática de não jogar no dia seguinte ao de uma derrota, meu bankroll agüentaria 40 dias. Mas você dirá, com razão: "que coisa mais idiota, gastou 40 dias para perder tudo, mas perdeu as mesmas 20 vezes". Concordo, só que eu gosto de jogar, e prefiro ter dinheiro para dois meses do que para um. "Só que, nestes dois meses, só jogaria a metade dos dias, e daria quase na mesma..." Certo, você tem razão, só que fazendo o que faço eu acho que diminuo a chance de perder dois jogos seguidos. Por quê? Aí é que entra a segunda e principal razão de eu fazer isto. Porque, neste intervalo de um dia sem jogar, ou eu dou uma estudadinha, ou, o mais importante, eu relaxo. Aquela emoção negativa que a derrota me causou vai embora mais facilmente. Quando eu voltar pra mesa, eu não vou estar voltando de um dia que eu perdi, mas de um dia neutro. Provavelmente meu jogo não melhore em nada de um dia pra outro, mas eu melhorei. Estou mais tranqüilo, menos "tiltado". E jogar em tilt, definitivamente, é uma m%&*@. O tilt foi inevitável, porque eu queria ganhar. Mas eu o utilizo pra alguma coisa, nem que seja para evitar dois dias seguidos de tilt.
Uma pergunta interessante: "mas e durante o jogo? Estou no meio de um torneio, tomei uma bad horrível, fiquei com poucas fichas, e aí?". É verdade, é uma situação freqüente esta. No jogo de cahs, todo mundo já ouviu falar daquele conselho: se não for embora, pelo menos pare um pouco, dê uma relaxada de uns cinco minutos, e só então volte. Em torneio é diferente. Se você parar por três minutos, e os blinds estiverem altos, seu torneio já era, porque não há como parar de pagá-los. Sem falarmos que no tempo em que você parou as cartas continuaram vindo, e lá estava você, longe do computador, fumando um cigarrinho pra relaxar, e não viu que um par de damas passou pela sua mão... Ou viu, veio correndo, e não deu tempo de apertar o raise, e lá se foi seu par embora num fold automático. Revoltante... Realmente, nesta situação talvez não exista muito a se fazer. Se o jogo já está quase acabando, pra você, o jeito é continuar, mesmo tiltado. Talvez você consiga dobrar as suas fichas e isso naturalmente melhore o seu humor. Mas se você não está short stacked, ainda te resta uma quantidade razoável de fichas, talvez não seja uma má idéia dar uma paradinha de dois ou três minutos não. Espere passar a sua vez de ser o small blind (já que vai pagar, pelo menos veja as cartas) e a de ser o dealer (já que é a melhor posição para se jogar) e pare aí por umas três apostas. Não irá te custar nada em fichas e pode ser o minutinho que vai decidir seu destino naquele torneio. Parece uma bobagem, mas não é. Na prática vemos demais a seguinte situação: alguém perde uma boa parte do seu stack e aí, na rodada seguinte, o que faz? Mete um all in. Com que cartas? Um 72, um T8, um A3, enfim, com qualquer coisa que cai em sua mão. Resultado? Geralmente é eliminado. Por quê? Porque "apelou", grilou. Se tivesse parado por uma rodada só, tivesse ido beber um copo de água, e voltasse, talvez esperasse cartas melhores para dar o seu all in, com chances maiores de continuar vivo no torneio. Quando você, na raiva, aposta o seu montinho restante de fichas com qualquer carta na mão, você não está apostando só aquele tantinho de fichas, você está apostando o próprio torneio! Se for eliminado, acabou, está fora! Se dobrar, ainda tem chances, ainda continua.
Ter emoções por causa do jogo é algo absolutamente normal. Seres humanos gostam de competir entre si, e querem ganhar. Se algo que você quer aconteça não acontece, também é esperado que fique chateado. Você não é um robô jogando pôquer. não fique, portanto, lutando contra esses sentimentos ruins. Isto é muito trabalhoso, e talvez não dê resultado algum - e, se der, acabará por retirar grande parte do tesão de jogar. (A não ser que seja isto mesmo que você deseja...) Mais proveitoso, tendo tais sentimentos, é aproveitar-se deles, fazendo com que eles te guiem para uma direção melhor.
(Fernando César)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
EM DEFESA DO TILT
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