segunda-feira, 18 de agosto de 2008

ADMINISTRANDO SEU STACKE

Texto grande, dividi então em duas partes, a segunda coloco no próximo domingo.



ADMINISTRANDO SEU STACKE DURANTE UMA SESSÃO DE CASH (parte I)


Uma sessão de pôquer é composta de várias mãos, e cada mão é composta de alguns momentos. Temos, então, duas coisas distintas: o conjunto de mãos, formando uma sessão; e o conjunto de momentos que formam uma mão. Vamos analisar, aqui, a sessão como um todo e, em um outro artigo, o jogo mão a mão.

Qual o objetivo de um jogador, durante uma sessão? De uma forma simplista, responderíamos: "ganhar o máximo possível de dinheiro". Mas, na verdade, existem outros graus de objetivos:
1o) ganhar o máximo possível de dinheiro;
2o) ganhar dinheiro;
3o) não perder dinheiro;
4o) não perder muito dinheiro.

Claro que a hipótese "perder muito dinheiro" não entra como objetivo de ninguém.

E, outra coisa: a ordem de prioridades é o inverso da que colocamos acima, porque, para ganhar, é preciso primeiro não perder; para ganhar muito, primeiro é necessário ganhar um pouco etc.

Ou seja, eu diria que os objetivos a serem alcançados em uma sessão, passo-a-passo, são:
1o) não perder muito dinheiro
2o) não perder dinheiro;
3o) ganhar dinheiro;
4o) ganhar o máximo possível.

Analisemos cada um destes em separado.

1o) Não perder muito dinheiro

O "muito" é uma definição particular, cada um sabe quanto é muito para si.
A maneira mais fácil de não perder muito é limitar a sua aposta. Por exemplo: "não perder mais que $25 por dia". Perdeu os $25? Acabou o jogo, por hoje. Isto exige, claro, disciplina, para cumprir o que estabeleceu. Acho que existe uma única situação que justifica continuar jogando após ter perdido o que estabeleceu: se estava bem no jogo e só perdeu o estabelecido por causa de uma bad beat e este revés não te tiltou. Se estes dois critérios estão presentes (o que é difícil, visto ser muito comum tiltar após perder muito dinheiro em uma bad beat), é viável continuar no jogo, pois a tendência é que recupere o prejuízo e possa até ganhar. Na verdade, mesmo preenchendo os dois critérios, existem duas opções: voltar ou não. Porque, mesmo jogando bem, é um fato inevitável que pode ocorrer outra bad beat, e acabar perdendo duas vezes o planejado. Neste caso, perdendo duas vezes o planejado, mesmo jogando bem, não é aconselhável voltar - porque o "tilt", mesmo que não esteja visível de uma forma clara, poderá estar presente de uma forma mais sutil: na expectativa de reverter o prejuízo - isto altera sua forma de jogar, colocando-o em mais riscos e, possivelmente, piorando a sua qualidade de jogo, o que pode levar mais facilmente a perder - e a conseqüências psicológicas que poderão afetar seu jogo até nos dias seguintes. Além disto, existe o risco de uma terceira grande bad beat, por que não?! A verdade tem que ser encarada: pôquer é um jogo de habilidade? Sim, mas sabemos bem que não é só isso - ninguém sabe que carta o river trará... E aí, lá se foram três vezes o limite estabelecido para a perda...

Então, creio que uma fórmula bacana seja: estabelecer um limite máximo de perda (por exemplo: $50), além do qual você não jogará de forma alguma, mesmo que esteja jogando bem e esteja ainda tranqüilo. A questão do limite máximo não se refere à qualidade do seu jogo, mas ao dinheiro. Se você estabeleceu um limite de perder por dia, seu dinheiro "acabou", e pronto! Continue amanhã, ou depois de amanhã, mas hoje não. Vá estudar seus erros, que ganhará muito mais com isso.

Estabelecido o limite máximo diário ($50, no nosso exemplo), eu redivido o limite em dois ($25), e este meio-limite é um "sinal amarelo", onde, se chegar a ele, eu dou uma paradinha e avalio o meu jogo. Estou perdendo por azar ou por estar jogando mal? Ou até estou jogando bem, mas os adversários estão melhores ainda? - apesar de ser muito difícil de se reconhecer isto. Se foi bad beat, azar, ou sei que posso jogar melhor, e estou tranqüilo, continuo, se quiser. Caso contrário - ou seja, estou jogando mal mesmo (e é fundamental perceber e admitir isto) -, então eu paro.
E, se continuo e perco os $50, independentemente do motivo, paro mesmo, acabou o dia.

Desta forma, se eu considero que perder $50 por sessão não é perder muito, e se consigo manter esta disciplina, não há como eu perder muito dinheiro no pôquer.

O primeiro objetivo já está alcançado. Vamos ao segundo.


2o) Não perder dinheiro.

Há uma maneira muito fácil de não perder dinheiro com o pôquer: basta não jogar, hehehe. OK, sem brincadeiras...

A estratégia que promove mais fácil o não perder (ou perder pouco, comparado ao que seria perder muito), é jogar bem tight, isto é, ir apenas com mãos iniciais muito boas e, quando ir, não arriscar demais. Mas é difícil alguém jogar de determinada maneira se esta não casa com sua personalidade. Há pessoas que gostam de arriscar mais, e estas não agüentarão ficar esperando cartas, e apostar baixo quando estas vierem. Portanto, esta estratégia dificilmente pode ser utilizada pelos mais ansiosos, pelos mais aventureiros. É mais estilo que estratégia. E a tendência é que o tight muitas vezes tenha ao final do jogo um saldo próximo a zero, porque quando resolve jogar, dificilmente outros pagarão muito por suas apostas, pois desconfiarão que ele tem um "jogão" nas mãos - não é raro, por exemplo, um muito tight dar um raise, ninguém pagar, e ele morrer com AA na mão e levar só os blinds...

Existe alguma fórmula, então, que sirva a todos, inclusive aos "aventureiros", para não perder dinheiro? É mais difícil... Quem joga de forma mais solta vê o seu stack passar por grandes oscilações durante o jogo. Por exemplo, começa com $50, cai a $30, sobe para $70, cai a $25, sobe para $80... Se o jogo transcorre assim, o melhor para não perder dinheiro é: quando estiver próximo do momento de parar, aguardar então um momento em que o stack esteja próximo de zero e encerrar ali. Existirá a tentação de continuar até estar positivo, só que, se está mesmo perto de parar, esta ansiedade para ficar positivo poderá prejudicar o restante do jogo, e acabar levando à perda. Além disto, se está próximo de sair da mesa, é porque está cansado, muitas vezes - e isto também reduz a qualidade do jogo. Melhor parar no zero-a-zero (perdeu só tempo, mas pode ter ganho algum aprendizado) do que parar no negativo, não?

Por fim, existe outra situação: aquele tipo de jogador que é mais contido, e que vai ganhando lentamente, mas, em determinado momento, começa a perder tudo o que ganhou, às vezes lentamente também, às vezes de forma rápida. Este jogador deve continuar na mesa? Voltamos à questão: a perda do lucro foi bad beat e o jogador continua calmo, capaz de manter o mesmo nível de jogo que vinha aplicando? Se sim, é OK continuar. Porém, a perda pode estar acontecendo porque a qualidade do seu jogo caiu (cansaço, ou não consegue mais ler os outros jogadores) ou a dos adversários melhorou (eles já conseguem te ler melhor). Aí o jogo ficou desfavorável, e a tendência é cair do zero para o prejuízo. Melhor parar. É mais racional, é mais lógico. Claro que ganhar dinheiro seria melhor que não ganhar, mas também é lógico que não perder é melhor que perder. Saia da mesa, estude os erros, volte em outro momento.

O fato de não perder dinheiro é uma coisa pouco valorizada, no pôquer. Os méritos são sempre para os vencedores. Mas não encare isto assim. Se alguém ganha, é porque alguém perde. E sempre há alguém perdendo dinheiro no jogo, todo dia, toda hora. Se você não perde, já é um grande feito, especialmente se você é iniciante. Já é uma grande coisa, sim.


3o) Ganhar dinheiro (continua semana que vem...)



(Fernando César)
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