segunda-feira, 18 de agosto de 2008

a filosofia do poquer I

Alguém já pode ter reparado que às vezes eu começo um assunto, digo que falarei dele em outro texto e acabo não voltado. Hehe. Coisas de iniciante, que acaba pensando em vários assuntos ao mesmo tempo. Bom, mas um dia eu volto, volto sim...



A FILOSOFIA DO PÔQUER (I)


É impossível ganhar todas as mãos, no pôquer. Primeiramente, por uma questão matemática - numa mesa com 10 jogadores, a sua chance de estar com a mão vencedora em uma rodada é de 10%; de estar com a vencedora em duas rodadas seguidas é 1%; três seguidas: 0,1% etc. Pelas probabilidades, você só terá a mão vencedora em cerca de 10% das vezes (numa mesa com 6 jogadores, este índice sobe para 16,6%).

Se em 90% das vezes a sua mão não é a vencedora, é possível, nestes casos, mesmo assim ganhar? Só se fizer seus adversários descartarem a mão vencedora. Como? Blefando. Só que também é impossível ganhar todas as mãos blefando. Por quê? Porque logo desconfiarão de você e começarão a pagar.

O esperado seria que cada jogador, numa longa sessão, ganhasse um número relativamente parecido de mãos, em porcentagens, se todos jogassem até o showdown. Porém, a cada sessão a sorte favorecia mais a um que a outros, e seria normal, por exemplo, que um ganhasse 15% das mãos e outro apenas 5%.

Mas, a longo prazo, a sorte tende a não favorecer ninguém.

Só que, além disto, boa parte das partidas não vão até o showdown, justamente por causa do estilo de cada jogador. Um jogador mais loose, agressivo, ganhará mais mãos que a sorte naturalmente lhe reservaria, porque retirará da jogada os mais cautelosos, que muitas vezes teriam a mão vencedora. Os blefadores também ganharão mais mãos que o natural. Os tight ganharão menos que o esperado. Só que isto não quer dizer que os mais conservadores perderão dinheiro e os mais agressivos ganharão mais. Ganhar o maior número de mãos não significa sair com lucro porque os mais agressivos gastam muito para ir a muitos showdowns que perderão. Os tight podem sair vencedores, se nos poucos potes que disputarem e vencer houver uma grande quantia de dinheiro.

Portanto, a regra de ouro para sair ganhando dinheiro, no final de uma sessão, é gastar pouco, ao perder uma mão, e lucrar muito, ao vencer uma mão.

OK, nenhum segredo até aqui. A questão é: em qual mão investir, e em qual não?!

[Obs.: quando estamos falando de mão, neste artigo, não é apenas a mão inicial (ex.: JTs, uma boa mão), mas da mão formada até aquele momento do jogo, o que inclui as cartas que estão no board (ex.: 2-3 na sua mão ruim e 4-5-T no flop formam uma ótima combinação, pelas duas pontas abertas para seqüência).]

Uma partida tem diversos momentos, justamente os que são destinados às apostas: antes do flop, após o flop, após o turn e, finalmente, após o river.

Diversos livros de estratégias tratam em separado de cada momento destes. Não é nossa intenção aqui nos aprofundarmos nisto. Pelo contrário, estamos em busca da essência de todos estes momentos. Dos segredos que estão presentes em todos estes estágios de uma mão.

Pois bem. Existem poucas situações possíveis, em cada um deste momento. Você, analisando suas cartas e as comunitárias, que estão na mesa, pode chegar a uma das seguintes conclusões:
* tenho certeza que ganho;
* acho que ganho;
* talvez ganhe, talvez perca...;
* acho que perco;
* tenho certeza que perco.

As situações básicas são essas, sempre, independentemente de quantas cartas já foram abertas na mesa.

Por exemplo:
1) antes do flop, você está com KK. Você acha que ganhará, embora não tenha certeza disso - um A8 com um A no flop te derruba.
2) antes do flop, numa mesa de 10 pessoas, você tem 7-2, de naipes diferentes. Você tem quase certeza que perde. Não é certeza porque um flop 7-7-2 mudaria tudo... Mas você sabe que a chance do flop ser este é baixíssima.
3) após o river as cartas no board são K-T-7-4-2; você está contra mais um oponente que tem dado check desde o flop até o river. Você tem 7-5 na mão. Você não pode dizer nem que perca nem que ganhe. Talvez ele tenha um T, talvez segure 88, talvez 66, talvez ele não fez nem um par. Você não tem idéia do que ele tem e seu jogo é mediano.
4) o board foi Ks-Jh-9s-4s-4d. Há três cartas de espadas neste board. Você tem As-6s na mão ¿ ou seja, o melhor flush possível. Se alguém segurar um flush também, você ganha. Se alguém segura Q-T, formando seqüência, você também ganha. Ganha de alguém que tenha KJ, assim como quem tenha uma trinca de 4. Mas perderia para algumas mãos: KK, JJ, 99, 44, K4, J4, 94. Como acha pouco provável que alguém jogue em estas três últimas, e sabe que é pequena a chance de alguém ter saído com uma das 4 primeiras, você tem quase certeza que ganhará.
5) etc. Os exemplos são inúmeros. O que estamos querendo frisar, por enquanto, é que, a qualquer momento, as suas análises do jogo não podem ser diferentes destas situações básicas

Só que há uma coisa que faz diferenciar um momento dos demais: o river. Ele é o fim da linha, tanto para quem estava esperando construir uma mão forte como para quem esperava que os outros não conseguissem.

O que diferencia o momento após o river dos demais é que, até o turn, em quase todas as suas análises deveria ser acrescentado um "por enquanto": "por enquanto, tenho certeza que ganho" (quando você sai com AA, antes do flop, "por enquanto" você está ganhando); "por enquanto, estou perdendo" (ex,: 2-2 na mão e AKJ no flop - por enquanto, é quase certo que você está perdendo, mas um 2 no turn e um outro improvável 2 no river mudariam tudo...).

Antes do river é o "por enquanto", depois dele é a hora da verdade.

Desta forma, distinguimos dois momentos principais: antes e após o river e as possíveis análises em cada um destes dois momentos.

O resultado de uma sessão é a soma de todos os resultados de todas as mãos: o tanto que ganhei menos o tanto que perdi. E o negócio é ganhar o máximo possível e perder o mínimo possível. (Lembrando que esse "mínimo" nunca será zero. Mesmo os tight têm que pagar blinds com cartas que fatalmente terão que desprezar frente a qualquer raise; mesmo eles apostarão em cartas que têm quase certeza que ganharão mas que serão surpreendidas por jogos maiores.)

A perda é garantida. Todo blind que você paga já não pertence mais a você, e sim ao pote. Se ele voltar pra você, ótimo, mas nem AA ou KK garantem este retorno.

Já o ganho não é tão certo. Ou seja, a batalha pelo lucro é dura.

O que vai determinar o saldo final positivo é perder pouco com mãos fracassadas e ganhar muito nas poderosas. Mas, como é fácil perceber, raramente teremos em mãos um jogo que teremos certeza que ganhará. Também poucas vezes teremos certeza de não estarmos com a mão vencedora - porque o adversário pode estar blefando, e mesmo o seu jogo que não deu nenhum par, mas possui um K na mão, pode ser maior que o dele, que também não tem nada, apenas uma Q como kicker. Assim, é correto afirmarmos que na maioria das situações não temos certeza do potencial da nossa mão.
Muitas vezes achamos que ganharemos mas acabaremos perdendo. E vice-versa.

Isto leva aos seguintes resultados possíveis:
* sei que ganharei --> ganho;
* acho que ganharei --> ganho a maioria, mas perco muitas;
* não sei se ganharei ou perderei --> talvez ganhe a metade, e perca a metade;
* acho que perderei --> perderei quase todas, mas ganharei algumas;
* tenho certeza que perderei --> perco.

Os pontos principais do resultado de um jogo estão dentro de algumas destas situações:
1) sei que ganharei: tenho uma quadra, não é possível que alguém tenha feito um straight flush. Como fazer para arrecadar o máximo de dinheiro possível com esta mão?
2) sei que perderei: tenho 2-4off na mão e o board foi A-3-6-K-T rainbow. Até um 2-5off ganha de mim. Quanto eu poderia apostar para conseguir fazer o outro correr? Ou nem um all-in fará ele dar fold? Ou eu devo eu dar fold e perder o que já coloquei no pote sem arriscar-me a perder mais?
3) acho que ganharei: A na mão, A no board, o adversário parece não ter dois pares. Até quanto ele pagaria? Qual o risco de eu apostar muito e acabar sendo surpreendido e perder?
4) etc. Para cada situação há suas perguntas-chave.

Mas, vejamos bem, a situação é ainda mais complexa do que parece. Porque estas questões acima são válidas após o river. Pois, antes dele, são um pouco diferentes.

Um exemplo: tenho JJ na mão e o flop foi Jc-Td-4c. Neste momento, estou ganhando. Mas uma Q transforma alguém que tenha AK em vencedor. Mas mais uma carta de paus dá um flush a quem segura AcQc ou mesmo 6c-5c.

No primeiro momento do jogo, que para nós, aqui, é tudo o que acontece antes do river, neste primeiro momento as questões são diferentes.

Sei que estou ganhando. Quero aumentar o pote, para ganhar muito, mas quanto devo apostar para que os adversários continuem vantajoso continuar perseguindo suas seqüências, seus flushs, sem dar fold? Quero aumentar o pote, mas e se eu aumento e alguém dá um raise? Terei que pagar, claro, ótimo, mas e se o jogo deles acontecer só no river? Terei perdido muito dinheiro nessa...

Vejamos um exemplo prático (clique e assista até o fim, são só 3 minutos e um grande lance):
Daniel Negreanu x Sam Farha

Negreanu "flopa" um nut straight. Fahra tem apenas cerca de 37% de chances de fazer um flush, um flush que estaria longe de ser o mais alto possível, diga-se de passagem. Quando o flush se concretiza, Negreanu consegue ler a mão de Fahra e dá fold, corretamente. Ele arriscou, ao deixar Fahra ir até o river. (Observe que ele dá apenas call à Fahra após o flop.) Se o flush não acontecesse, ele ganharia muitas fichas até lá. Perdeu poucas, ao dar fold. Se tivesse aumentado muito a aposta após o flop, pode ser que Farha pagasse (esses campeões fazem jogadas imprevisíveis - como jogar com 92s...), mas é provável que tivesse saído. Negreanu ganharia poucas fichas, mas ganhar poucas é melhor que perder poucas, não? E, aliás, se Fahra não coloca Negreanu em all-in após o river, é provável que ele pensasse menos e pagasse, perdendo ainda mais fichas...

Não é minha intenção discutir, aqui, quem jogou certo. Com este vídeo, apenas quero mostrar os dilemas do "por enquanto". Após o flop, Negreanu tinha certeza de estar ganhando. Mas se saísse um 8 no board haveria um empate. Um flush acabaria (e acabou) com seu jogo. O par 55 na mão de alguém, trincado no flop, teria virado uma quadra no river. Etc. Ou seja, o que fazer, acabar logo com a mão? Arriscar a acabar e ser pago e perder muito, talvez tudo? Ir vendo, e arriscar-se a perder pouco? As dúvidas são muitas e são a própria essência e beleza deste jogo.

Mas o pôquer não é para ficarmos admirando sua graça e... perdendo dinheiro! Precisamos tomar decisões inteligentes nestas situações.

Até que ponto vale a pena continuar pagando por um possível flush? Até quando deixar seu adversário pagar por um possível flush?

Feita toda esta introdução, comecemos a analisar algumas situações em particular.


1o) VOCÊ ESTÁ GANHANDO, POR ENQUANTO

Suas cartas iniciais são as tão aguardadas A-A. Por enquanto, você está ganhando. Você está em final position, e uns 3 deram limp até você. O que fazer?

Vejo muita gente dando apenas o raise mínimo nesta posição. Por exemplo, numa mesa $0.10/0.25, faz um bet total de $0.50 (2 BBs). Eu quase não entendo esta jogada. Quem pagou $0.25 por suas cartas, provavelmente pagará mais $0.25, ainda mais porque o pote cresceu. Então, restarão uns 3 adversários, por exemplo, se um dos limp der fold e se o big blind completar. AA contra outros três adversários já não é mais um negócio da China... Você ainda está ganhando, o pote cresceu (para $2.35), mas agora tem tantas chances de ganhar quanto de perder... Você pagou para um pote onde suas chances são cerca de 50%, ou seja, investiu em loteria. Para quê?! Aí vem o flop e alguém pode fazer duas duplas, uma trinca, possibilidade de flush, de seqüência etc. Em chances próximas de 50%, a longo prazo este tipo de jogada não seria nem lucrativa nem prejudicial. Então, por que faze-la?!

O único benefício que vejo neste raise é a mensagem que pode ter passado à mesa: "tenho alguma coisinha promissora na minha mão". Mas esta mensagem poderá nem ser levada muito a sério, porque é normal o raise em final position. E, aliás, é até melhor que pensem que você não tem nada mesmo...

Por outro lado, se tivesse feito uma aposta mais alta, por exemplo $1 (4 BBs), pode ser que apenas mais um topasse continuar. O pote estaria mais alto ($2.85) e suas chances de ganhá-lo seriam no mínimo de 80%! Claro que o outro só continuaria no jogo após o flop se fosse ajudado pelas 3 cartas, caso contrário desistiria logo ali, continuando apenas se tivesse algo como AK, KK, QQ na mão - porque antes do flop você sinalizou que tinha um "monstro" na mão. Ou seja, provavelmente o lucro daí em diante não seria mais tão grande. Mas, mesmo assim, foi um lucro de pelo menos uns 8 BBs, ao contrário da primeira opção de jogada, que, a longo prazo, não daria lucro.

Uma outra opção seria matar o jogo antes do flop. Um raise de $2 (8 BBs) provavelmente faria com que todos dessem fold. O lucro seria menor (4,5 BBs), mas o risco seria zero.

Qual a melhor opção? Esta última só é boa para os muito medrosos, que não querem correr risco algum estando com o melhor jogo. Só que os muito medrosos não terão coragem de dar um raise de 8 BBs, porque "vai que alguém paga", e o flop sai KJ6? O medroso começa a pensar: "E se ele fez duas duplas? E se fez trinca?" E acaba fugindo de um raise ou re-raise qualquer.

Nem matematicamente esta terceira opção compensa. Ter 100% de certeza de ganhar 4 BBs significa ganhar, em 100 jogadas semelhantes, 400 BBs. Já ganhar 85% das vezes 8 BBs significa, em 100 jogadas idênticas, ganhar 680 BBs (85 x 8) e perder 60 (15 x 4), dando um saldo positivo de 620 BBs. Ou seja, cerca de 50% maior que o raise matador.

É óbvio que na "vida real" as coisas não serão bem assim: às vezes ninguém pagará o raise de $1, às vezes alguém pagará o raise de $2 - e ainda dará re-raise, às vezes todos podem dar fold ao seu mísero raise de $0.50...

Mas, mesmo as coisas não saindo exatamente sempre da mesma maneira, elas têm um modo mais freqüente de ocorrer, e as hipóteses que levantamos aqui são as mais lógicas: quanto maior o seu raise, menor a chance de alguém permanecer na mesa. E é claro também que outros fatores devem ser considerados: por exemplo, se naquela mesa específica há alguém que não agüenta ser provocado com um raise enorme, ótimo, dê o raise de 8 BBs e deixe ele se afundar. Etc.

Disto tudo, parece que tiramos uma primeira lição: o slow playing não compensa quando se está com o maior jogo na mão e há uma possibilidade grande de que este jogo não seja mais o melhor até o showdown.

Outro vídeo do Negreanu, acontecendo quase a mesma coisa do primeiro (não é perseguição com o Negreanu, rsss): (este são 7 minutos, mas o pote chega a centenas de milhares de dólares!)

Daniel Negreanu x Gus Hansen

A situação aqui é após o flop. Negreanu tem uma trinca. Estaria perdendo apenas para 9-9 ou 8-7 (combinação menos provável de estar sendo jogada por Gus). Mais uma vez, não matou o adversário com o quase-nuts, e evoluiu para um full, mas seu adversário fez uma quadra! Errou? Difícil dizermos isto... Tinha uma trinca, queria coletar mais. Um full, quis coletar ainda mais. Mas, sem dúvida, um dos mais caros bad beats a que alguém se sujeitou na história do pôquer...




Bom, por hoje, chega... Este texto já está enorme, e é mesmo um assunto muito importante. Voltamos a ele nos próximos artigos.

Um abraço a todos.



(Fernando César)
(E-mail) (Orkut) MSN: fernandopsiquiatria@bol.com.br

Um comentário:

Jorge Augusto disse...

Bom artigo! A sua mão deve ser avaliada a carta carta que sai no board. AA, KK e outras boas mãos inicias podem ser derrotadas com facilidade dependendo do board. A avaliação deve ser feita carta a carta e dependendo de quem você está enfrentando, número de jogadores na disputa e outros fatores. Novamente parabéns pelo artigo!