segunda-feira, 18 de agosto de 2008

IN THE MONEY

Estava escrevendo um artigo chamado "Momentos de um torneio", mas o miolo dele, quando começo a discutir sobre a questão da importância ou não de ficar in the money, ficou tão grande que achei melhor destacá-lo em um artigo isolado. Em outra ocasião colocarei, portanto, o "Momentos...". À partir desta semana, pretendo postar alguma coisa também na sexta-feira, não um artigo mais "sério", mas alguma outra coisa relacionada ao pôquer, como biografias de grandes jogadores, curiosidades etc.



IN THE MONEY

"Money, it`s a gas" (Pink Floyd, "Money")



Uma questão interessante: muitos jogadores dizem "eu não jogo pra ficar in the money, eu jogo para ir pra mesa final (final table)". Estes mesmos recomendam que você não freie o seu jogo só porque a bolha está para arrebentar. Mas devemos interpretar melhor esta frase. O que é melhor? Ficar ITM ou ir pra final table? A resposta é óbvia. Assim como também não há dúvidas que ficar ITM é melhor que ficar fora. Aliás, é beeem melhor ser o último do ITM que o primeiro fora (out), não é não? Não é só por causa do dinheiro recuperado, embora isto a longo prazo seja importante também. É mais por causa da raiva que dá ser o bubble. Especialmente se foi por causa de uma jogada besta logo antes da bolha estourar.

Então, é claro que todo mundo prefere ficar in que out. Mas o que estes jogadores estão querendo dizer é apenas que o objetivo deles não é "figurar", ficar ITM, mas sim ir mais longe. Mas, pergunto: quem não quer? A diferença entre uns e outros é simplesmente que uns se contentam de ficar ITM, e outros não. Mas garanto que até quem planeja firmemente chegar à mesa final prefere ficar ITM que fora. Só que, para estes, o jogo é algo mais linear, tipo "quanto mais longe for, melhor", onde ficar em 250o é melhor que em 300o, ficar em 100o é melhor que em 200o etc. Para eles, apenas deixa de existir a linha que separa os que figuraram e os que não. Então, deixa de existir também este momento do torneio, quando a bolha está para arrebentar. Aliás, para eles é até vantagem o momento, porque é a hora de roubar os blinds dos que estão aguardando a bolha estourar.

Dizem também que quem não joga para vencer nunca vencerá, querendo dizer que quem dá esta reduzida perto da bolha nunca chegará à final tables. Não sei se a coisa é tããão grave assim. Acho que estão misturando duas coisas distintas. Nada impede um jogador de dar a freada, e depois que estiver ITM voltar a jogar agressivamente.

O problema é que muitos que afirmam isto são jogadores que, realmente, vão muitas vezes às final tables. E acabam, assim, sendo "formadores de opinião", servindo de espelho para muitos iniciantes, que acabam influenciados por suas idéias.

Só que não existe um estilo de jogar que sirva para todos. O mais importante é cada um descobrir o que mais lhe agrada, porque o pôquer não deve ser jogado para se irritar, contrariar-se, na busca dos grandes prêmios. O bom mesmo é fazer isto (buscar a vitória) e, ao mesmo tempo, estar contente de estar jogando. O negócio deve ser prazeroso. Se você segue demais os conselhos alheios, ficará alegre quando der certo, mas se sentirá um trouxa quando derem errado. E, jogando contra seu próprio estilo, contra sua própria personalidade, é bem mais provável que se dê mal. Não porque a tática não era boa, mas porque ela não era boa pra você!

Ou seja: quer esperar a bolha estourar? Espere, se quiser. Sem constrangimento, sem vergonha.

O campeão Chris Ferguson afirma (aqui) que torneios e cash devem ser jogados da maneira mais parecida possível. E que, no torneio, sua maneira de jogar não deve mudar nos diferentes momentos do jogo - por exemplo, vendo mais flops no início, porque o blind está baixo. Quem sou eu para contradizê-lo? Mas pouco depois, ele mesmo disse (aqui) que quando se está com stack baixo deve-se "fazer isso", com stack alto deve-se "fazer aquilo" etc.... Enfim...

(Pouco depois de ter começado a escrever este artigo, estava em um torneio que pagava aos 100 primeiros. Pelo tanto de fichas que tinha, ficaria ITM. Eu gosto de ficar ITM... Saio com QQ, aposto, um paga. Flop: 678. Aposto, ele aumenta. Não acreditei nem em KK nem AA. Pago. Turn: 2. Pago, novamente. River: 5. O cara aumenta a aposta. Nessa hora sim, fiquei com medo dele ter um 4 ou um T. Mas já tinha ficado com poucas fichas, e o pote estava alto. E ele poderia estar blefando. Ele mostra 9T. Putz, que raiva! Fiquei com tão poucas fichas que só foram suficientes pra pagar os blinds da próxima rodada e cair fora.
Fiquei muuuito contrariado, mesmo. Depois dessa, acho que dou fold pré-flop até com AA, quando estiver perto da bolha, hehe...)

Na verdade, não defendo de forma alguma que o objetivo primordial seja ficar ITM, porque geralmente as últimas posições geralmente pagam pouco mais que o que foi investido. Ou seja, não há utilidade quase nenhuma em passar horas jogando para sair com o mesmo dinheiro que entrou! A não ser que seja um freeroll. Se é um freeroll de prêmio baixo, é porque está sendo jogado por um iniciante, na maioria das vezes. E os iniciantes geralmente precisam aumentar seu bankroll - logo, qualquer centavo que entra é lucro. Se for um freeroll de prêmio alto, muitas vezes também compensa ficar ITM nas últimas posições. Fora estas situações, o objetivo mesmo deve ser ganhar. Ou, pelo menos, chegar à mesa final. Mas há uma grande diferença, em prêmio, entre o 1o e o 10o colocados.

Peguemos um torneio qualquer como exemplo. Buy-in $10 +1, 630 participantes. O 80o (até o 61o) ganhará $18,90. O 10o, $75,60. O 1o, $1512.
Se são 630 inscritos e pagam aos 80 primeiros, sua chance de ficar entre estes 80, ao acaso, é de cerca de 13%. Se toda vez que ficar ITM você fica entre os 20 últimos, calculemos o retorno do investimento correspondente:
* custo: 100 torneios = $1100
* prêmios: 13 x $18,90 = $245
* balanço: prejuízo de $855 ($8,55 por torneio)

Se o torneio fosse apenas sorte, o esperado é que você ficasse 13% das vezes ITM, mas destes 13% haveriam algumas vezes em que você ficaria numa posição melhor. Se jogasse 630 torneios, é possível (matematicamente) que uma vez ficasse em primeiro, uma em segundo etc., e 87% das vezes não ganhasse nada. E qual seria o retorno?
* custo: 630 torneios = $6930
* prêmios: $6300
* balanço: prejuízo de $630 reais ($1 por torneio)
Por que o prejuízo? Por causa da taxa cobrada pelo site, de $1 por torneio de $10.

Mas o torneio não é sorte. Não é sorte, melhor dizendo. Então, se você está tendo um retorno negativo, maior que a taxa cobrada pelo site, é necessário admitir que você está jogando mal. E, conseqüentemente, perdendo dinheiro. (Sim, está ganhando experiência, claro, mas aí é você que tem que avaliar se estas "aulas" estão baratas ou caras - e, mais importante, se está mesmo adquirindo experiência, porque jogar muito não significa necessariamente aprender na mesma proporção).

Um jogador que ganhe um ou outro torneio e fique fora do dinheiro na grande maioria das vezes pode ser considerado um bom jogador? (Geralmente isto acontece com os muito agressivos, que estão sempre arriscando dobrar-as-fichas-ou-sair.) Depende. Para uns, sim, porque às vezes ele ganha. Outros julgam mais a regularidade. Vamos analisar a coisa só do ponto de vista financeiro, agora.

Se o prêmio para o primeiro, neste exemplo, era de $1512, isto significa que se o jogador recebeu 137 vezes o valor da inscrição. Isto é, se ele ganha uma a cada 138 participações, e o restante fica fora da grana, ele está é perdendo dinheiro. Precisaria ganhar no mínimo 1 em 137 para não ter prejuízo nenhum. Mas é claro que, se joga para ganhar porém nem sempre vence, muitas vezes ficará ITM, provavelemente. Sendo assim, não precisa ganhar exatamente 1 em 137 para não ter prejuízo. Digamos que 1 em 150 já significaria algum lucro, por causa destas outras vezes que ficou ITM. Repare que podemos dizer que o lucro não foi porque ele ganhou 1 em 150 - isto seria prejuízo, claro. O lucro veio por causa das vezes que não ganhou mas ficou ITM.

Fácil conseguir? Não. Às vezes vemos um jogador ganhar um prêmio grande e pensamos "nooossa!". Mas muito pouco, muito pouco mesmo, se fala de quanto aquele jogador gasta em inscrições. Em sites que mostram detalhadamente o desempenho de jogadores, é possível observarmos isto. No Official Poker Ranking (dica do Silvio, do Dejá Vu), por exemplo, vejo um caso: o sujeito está no ranking dos 100 que atingiram maior pontuação. Ganhou 90 mil dólares nos últimos 120 dias. Contudo, para ganhar isto gastou 53 mil! Perfeito, ótimo investimento para estes 50 mil dólares. Mas estamos falando aqui de um jogador que está no topo do ranking, e não mais pra baixo. Descendo apenas um pouco, podemos ver um caso de um jogador que está mais ou menos em 15000o no ranking. Acha que descemos demais?! Saiba que este ranking é composto por quase 200 mil jogadores, então este jogador ainda está entre os 10% mais bem pontuados. Pois bem: premiação total de 15.200 dólares. Gasto? 14.900... Ganhou 2% em 2 meses. E experiência, claro... E a chance de ter ganho um "big" prêmio. Fora isso, compensava mais ter montado uma padaria...

Agora é mais do que justo você perguntar quem sou eu pra criticar o cara. Afinal, quantos mil dólares já ganhei no pôquer? Você tem razão, nunca ganhei 15 mil (nem que fosse gastando 14 mil). Não estou criticando-o, cada um que faça o que quiser com o seu dinheiro. Estou apenas mostrando os fatos. E o fato real é que esse cara ganha relativamente muito, mas não lucra nada.

Quer ver algo mais absurdo e que vai direto ao ponto que quero chegar? É só ir no ranking apenas de prêmios. No dia que olhei, o cara que estava aproximadamente em 150o, tendo ganho 60 mil dólares, tinha um ROI de -10%. Ou seja, gastou uns 65 mil na brincadeira... Outro ganhou 30 mil, mas gastou 45... Estes casos não são propriamente exceções. Existem vários entre os 1000 que mais ganharam prêmios. Se descermos um pouco mais no ranking, a situação começa a se tornar ainda mais freqüente. Um jogador, por exemplo, ganhou 8 mil, tendo gastado 24 mil... Sorte dos que jogam com ele... (Taí uma coisa boa de ser feita antes do início do torneio, quando já está "sentado" à mesa: triar o histórico dos seus oponentes, para ver o nível deles - e, claro, deixar nas notes.)

Um jogador mais regular precisa pensar de uma maneira diferente. Ele deseja lucro também, mas mais consistente (não necessariamente maior). E considera que o dia em que ganhar um prêmio mais alto ele tirou a "sorte" grande. Ter um ROI relativamente estável (positivo, claro) deve ser a sua meta. Para ganhar mais que perder, obviamente tem que ser, ao menos, bom. Se contar só com a sorte, como vimos, geralmente terá algum prejuízo. Porque outros contaram com a sorte e com suas habilidades.

Suponhamos que o jogador deseje um ROI de 25%. Jogando 2 torneios de $11 por dia, 5 vezes por semana, seriam 40 por mês. Gasto de $440. Precisaria ganhar $550 para ter tal retorno. Precisaria ficar ITM, nas últimas posições, em 30 torneios. Ou seja, 75%. É uma taxa altíssima. E não garantida, pois em torneios a variação de resultados e do ROI é maior que no cash.

Talvez o ideal seja mesmo trabalhar com um ROI próximo de zero, sendo o lucro esperado para quando acontecer uma grande vitória. Nesse exemplo, gasto de $440, o ROI igual a 0% seria obtido ficando ITM 24 vezes (60% das vezes). Ainda é muito difícil! Mas um pouquinho menos do que parece. Porque, se considerarmos que o nível dos jogadores é semelhante, por efeito do acaso qualquer um fica 13% das vezes ITM (no exemplo de 630 inscritos e 80 premiados). Ou seja, ele precisa se superar (e superar os adversários...), mesmo, não em 60% dos torneios, mas em "apenas" 50% dos torneios. É uma taxa ainda muito alta. Voltemos ao site dos rankings. Entre os 100 jogadores com maior lucro (onde esperamos encontrar os melhores, não?), os três primeiros estavam, na data que olhei, com taxas respectivas de 14, 14 e 12% ITM. Um, mais abaixo, tinha 75%, mas só participou de 4 torneios, ou seja, é um número estatisticamente ainda pouco confiável. Mais uns dois apenas estavam acima de 50%, mas também tinham participado de muito poucos torneios. Sorte de principiante a deles? Ou um grande talento? Quem sabe... O fato é que é preciso um dom quase sobrenatural para figurar ITM mais de 50% das vezes. Ou seja, o ROI não é garantido em torneios, ao contrário de um jogo estável no cash.

Quase chego a concordar, aqui, com quem diz que "torneio é loteria". Loteria não no sentido de que depende-se exclusivamente da sorte para ganhar. Loteria no sentido de que é um investimento onde é quase certo que irá perder o dinheiro investido, na maioria dos casos, e em uma ocasião ou outra pode ganhar um prêmio grande, mas correndo o risco de, quando ganhar, já ter gasto mais do que o prêmio recebido. E por que é assim? Justamente porque torneio é um tipo de jogo onde a sorte conta mais que no cash, e porque, mesmo que você se ache um ótimo jogador, pode estar certo de que a grande maioria dos seus adversários também deve pensar o mesmo de si próprios, e efetivamente uma boa parte está no mesmo nível que você e, provavelmente, muitos são até melhores mesmo.

Surge então uma idéia: seu bankroll permite que você jogue confortavelmente 40 torneios de $11 por mês. E se você jogasse em um mais baixo, onde o nível dos jogadores é supostamente um pouco menor, não seria mais fácil ter retorno financeiro? Sim, só que: (1) quanto mais baixo o nível, mais o torneio tem resultados caóticos, inesperados; (2) prêmios mais baixos são menos estimulantes; (3) ter um ROI de 25% em 40 torneios de $5 +1 significará apenas $60 de lucro ao mês, sendo que para lucrar os mesmos $110 desejados precisaria ficar ITM cerca de 28 vezes, ou seja, em quase 70% dos torneios!

Claro que o melhor jeito de ficar em 20o é jogar pra ficar em 1o... Porque se você jogar pra ficar em 20o, é possível que fique em 100o... Ficar ITM mas longe da final table não deve ser o objetivo, mas também não é uma coisa desprezível. A longo prazo, isso vai determinar a direção da curva do seu bankroll, se ascendente ou descendente...

Porém, se a coisa é tão complicada assim mesmo, por que é que tanta gente prefere jogar torneios do que cash? Devo voltar nesse assunto em outro artigo...


(Fernando César)
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