BOAS VINDAS A TODOS
Resolvi criar este blog por algumas razões bem específicas. Uma delas é a notável escassez de material, em português, sobre a psicologia do pôquer. A Matemática é deveras importante. É fundamental. Mas acho que há coisas ainda mais importantes, tanto no nível mais baixo quanto em mais avançados.
Quando se fala que "o pôquer é um jogo psicológico", a primeira idéia que as pessoas têm é de um jogador olhando "fundo" nos olhos do outro, tentando "adivinhar" o que este possui, para decidir o que fazer. A Psicologia serve para isto, também. Mas vai muito além. Quando os principais jogadores mundiais de pôquer são questionados sobre quais são as principais habilidades que um jogador deve ter, repare: sempre citarão qualidades como "paciência", "auto-controle" etc. Ora, o auto-controle não depende de QI, de habilidades matemáticas ou algo assim. É uma virtude psicológica. Saber perder, controlar a compulsão, e até saber ganhar, são características psicológicas.
É inevitável dizer: existe uma "personalidade do vencedor". E mais: não acredito que, se uma pessoa não a tenha, não possa desenvolvê-la. Quando há um objetivo claro (ser um vencedor), vamos executar com mais facilidade os passos necessários para alcançá-lo. Mesmo que estes passos sejam difíceis, como alterar o próprio comportamento.
O segundo motivo pelo qual este blog nasce é o desejo de estabelecer uma troca. Sou psiquiatra, e entendo um pouquinho de psicologia. Mas no pôquer, estou apenas engatinhando. Quero, então, que todos sintam-se muito bem-vindos aqui, e especialmente, que opinem, ainda mais se for para discordar, pois só assim poderemos realmente entrar em contato com idéias diferentes, e que podem acabar por nos iluminar para um jogo melhor.
Pretendo escrever um artigo por semana. Mais que isso seria improdutivo. Menos que isso, também. Mais adiante, pretendo realizar algumas pesquisas com os leitores-jogadores (vocês!) para esclarecer alguns pontos sobre a(s) personalidade(s) dos jogadores de pôquer.
Chega de papo-furado! Vamos ao artigo, abaixo:
"EU SOU UM PERDEDOR"
"I`m a loser, baby / So why don`t you kill me?" (Beck, "Loser")
Há um conflito evidente. Os livros de auto-ajuda dizem que você deve ter um pensamento positivo, acreditar que é um vencedor. Por outro lado, em qualquer blog ou comunidade do Orkut o que encontramos mais facilmente são jogadores lamentando suas más jogadas, suas perdas.
Em uma mesa onde 10 jogam, convenhamos, é mais fácil não ser o grande vencedor do que ser. Imaginemos então um torneio com 2000 participantes! Se fosse apenas uma questão de sorte, seria muito mais esperado que não fôssemos o vencedor. O problema é que todos nós sabemos que o pôquer não é apenas uma questão de sorte. Caso fosse, talvez não achássemos ruim não ganhar, assim como não vemos ninguém resmungar porque não ganhou a Mega-sena esta semana. Não dependeria de nós. Mas no pôquer não é assim. A sorte conta sim, talvez em torneios mais que em mesas, mas sorte não é tudo. Ela aparece um dia, some em vários outros. E quando ela desaparece, com o quê devemos contar? Com nossas habilidades. Só que, muitas vezes, não conseguimos reverter o jogo. Mesmo que tenhamos acabado de ler um livro de teoria de pôquer. Mesmo que tenhamos feito tudo o que fosse "certo", naquele jogo.
E então vem a decepção, o tilt. E até mesmo questionamentos mais sérios: devo continuar jogando? Será que eu sou bom mesmo nisso, como eu penso? Porque, se o jogo é de habilidade, e não consegui vencer, onde está a habilidade que eu pensava que tinha?!
A revista "Mente e Cérebro" de setembro/2006 traz um especial interessante sobre auto-estima. Uma conclusão obtida da leitura, em resumo, é que as pessoas sobre-estimam suas capacidades. Um exemplo básico: "Vários estudos mostram que os menos competentes são os que mais encontram obstáculos para analisar as próprias dificuldades. Observamos que alunos do segundo grau deixavam a sala de exame pensando que tinham se saído melhor que a maioria dos colegas, quando a nota obtida os colocava entre os últimos classificados." E mais: muitas pesquisas demonstraram que provavelmente a auto-estima elevada não é indício de sucesso profissional. Cito aqui o pensador inglês Thomas Hobbes (1588 - 1679), em "Leviatã": "A natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em outros maior inteligência, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios como eles próprios; porque vêem a sua sabedoria bem de perto, e a dos outros homens à distância." O que a auto-estima realmente auxilia é na facilidade para estabelecer contatos sociais.
Por que somos assim? Porque é mais fácil, mais reconfortante para o nosso ego. É por isto que criamos este auto-engano. Só que aí vem a realidade: o bankroll que não cresce na velocidade que desejaríamos, ou pior, fica estacionado ou diminuindo... E vem a pergunta: "Mas se o pôquer é um jogo de inteligência, e sou tão inteligente, por que estou perdendo?" Daí para começarmos a culpar o azar é um pulinho. Muito mais difícil é admitir: "eu achava que era bom, mas parece que não sou tão bom assim...".
Na verdade, só há um parâmetro real para avaliarmos nossa capacidade: não é o que achamos que somos, mas sim o que efetivamente somos. E esta resposta é fácil de ser obtida, e só pode ser encontrada em um lugar: no seu jogo, no seu bankroll. Se você quase sempre ganha, não por um período apenas, mas sempre, realmente você é bom. Mas se seus resultados oscilam, ou se você tem perdido mais que ganhado, é necessário admitir: "eu sou um perdedor".
Isso vai contra o que dizem os livros de auto-ajuda, vai contra a programação neuro-lingüística, eu sei. É claro que o pensamento positivo é importante. Mas o pensamento irreal só acaba trazendo problemas. Você entra em jogos de buy-in que a sua real habilidade não permite, e lá se vai seu dinheiro. Ou entra em mesas mais baratas, e perde, e fica mais "grilado" ainda, porque supostamente lá só encontraria "fishes". Mas "fish" era você...
Quando se coloca na cabeça "sou um vencedor", e acaba perdendo, a decepção é muito maior. O que não quer dizer não podemos ter um pensamento positivo: "sou um perdedor, ainda, mas posso melhorar, posso me tornar um vencedor também, por que não?". Vai doer agora, mas vai sair mais barato, a longo prazo.
Acho que são poucos os jogadores de pôquer que não chegaram a passar por um momento de questionar-se sobre suas capacidades. Talvez nesta hora muitos tenham desistido. Eu passei por isto quando comecei a jogar online. Contra meus amigos, no live, sempre ganhava. Admito que pensei: "vou ficar rico, online". Bastaram duas semanas para perder na internet todo o dinheiro que ganhei aqui fora. E vieram todas as dúvidas. Mas, pior que as dúvidas, é a ferida no ego. Cheguei, então, a um ponto de ruptura: ou desisto, ou insisto. Porém, só encontrei uma solução para poder continuar: assumir, "eu sou um perdedor". Posso até vir a ganhar, mais adiante - aliás, quero ganhar, e é só por isto que vou continuar. Mas, neste exato momento, eu não sou um "gênio do pôquer".
Qual a vantagem disso? A vantagem é que eu continuo querendo ganhar tanto quanto antes, mas agora eu posso perder. Não vou "tiltar" por causa disso. Aliás, é até normal que eu perca, é o esperado! Feliz será o dia que eu ganhar, mas o dia em que eu perder, tudo bem, eu sou um perdedor mesmo. Eu sou meus resultados, nem mais nem menos que isto. Atrás destes resultados existe um potencial, sim, mas tudo que é ainda potencial não é realidade. Contudo, ao menos ainda há espaço para o crescimento...
(Fernando César)
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
EU SOU UM PERDEDOR
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